A forma como viajamos está passando por uma transformação profunda. Muito além de escolher um destino no mapa, a decisão de fazer as malas hoje é moldada por forças poderosas, como a pressão no custo de vida, a busca por bem-estar e a crescente ansiedade climática. No entanto, a maneira como reagimos a essas pressões não é universal. Ela depende bastante da geração à qual pertencemos. É o que revela um estudo realizado pela Mintel sobre tendências geracionais de viagem.
Entender essas nuances deixou de ser um diferencial para se tornar uma questão de longevidade para quem trabalha com turismo e hospitalidade. O modelo “tamanho único” de pacotes de viagem ficou no passado. Agora é hora de entender, de acordo com dados da própria Mintel e de relatórios divulgados anteriormente pela American Express e pelo Hilton, o que a Geração Z, os Millennials, a Geração X e os Baby Boomers realmente valorizam na hora de viajar.
Geração Z e Millennials: A viagem como regulação emocional e autenticidade

Para os mais jovens, viajar não é apenas lazer; é uma ferramenta de construção de identidade e bem-estar emocional. A Geração Z e os Millennials viajam para escapar do estresse diário, buscar autodescoberta e criar conexões sociais significativas.
O que eles mais valorizam é a autenticidade. Segundo o relatório da American Express, 82% dos respondentes das gerações Y e Z procuram produtos locais e artesanais que os lembrem de sua viagem. Além disso, a natureza é vista como um espaço de regulação emocional, com uma forte inclinação para o slow travel e o turismo de bem-estar.
Apesar de serem altamente conscientes em relação ao orçamento (muitas vezes optando por viajar fora das altas temporadas ou escolhendo acomodações mais simples para manter a frequência das viagens), eles não abrem mão da experiência.
Oportunidades locais:
O Nordeste, com sua vasta riqueza natural, tem um potencial gigantesco. Mas não basta oferecer “sol e mar”. Em Alagoas, por exemplo, pousadas ecológicas ou experiências imersivas no Sertão alagoano, que ofereçam retiros de desconexão digital, trilhas guiadas por moradores locais e gastronomia autêntica, têm alto poder de atração. A palavra-chave é experiência modular, ou seja, que permita que eles montem a viagem do jeito deles, priorizando o que faz sentido para o seu momento emocional e conectando-os com a comunidade local.
Geração X: O pragmatismo do “Bleisure” e a conexão familiar
A Geração X (nascidos entre 1965 e 1980) vive o auge das responsabilidades financeiras e familiares. Para eles, a viagem precisa ser prática, eficiente e, acima de tudo, valer o investimento. Eles são os grandes coordenadores das viagens multigeracionais (quando viajam avós, pais e filhos juntos).
O que eles mais valorizam é a conveniência e a gastronomia. De acordo com a Hilton, 87% dos viajantes da Geração X buscam culinária local e regional quando viajam, e 81% gostam de ter um bom restaurante no próprio hotel. Além disso, com a consolidação do trabalho híbrido, a Geração X é a principal impulsionadora do bleisure (a mistura de business com leisure, negócios e lazer). Eles buscam destinos regionais ou domésticos que ofereçam infraestrutura para trabalhar, mas que permitam relaxar com a família no fim do dia.
Oportunidades locais:
A conveniência é o produto mais valioso para a Geração X. Eles não querem atritos. Em Alagoas, por exemplo, hotéis e resorts que ofereçam pacotes “família completa” (com infraestrutura de internet impecável para os pais trabalharem, recreação inteligente para as crianças e acessibilidade para os avós) saem na frente. Não é à toa que Maceió lidera como o principal destino turístico para famílias no país.
Oferecer roteiros estruturados, nos quais a família não precisa se preocupar com a logística de deslocamento, e destacar a culinária regional de forma acessível é o diferencial que converte a venda.

Baby Boomers: O conforto como regra e o fator humano
Os Baby Boomers (nascidos entre 1946 e 1964) são o grupo com maior resiliência financeira. Eles não estão dispostos a fazer concessões quando o assunto é conforto. Para eles, a viagem é uma recompensa, um momento de relaxamento profundo, tradição e conexão emocional.
O que eles mais valorizam é o fator humano e o serviço de excelência. A pesquisa da Hilton aponta que os Boomers são mais de duas vezes mais propensos a dizer que o fator humano da hospitalidade é o que faz a experiência de viagem valer a pena, superando o uso de tecnologias para reduzir o estresse. Eles valorizam a previsibilidade e a sensação de serem genuinamente bem-vindos. Diferentemente dos mais jovens, que buscam a aventura do desconhecido, os Boomers preferem destinos ricos em história, patrimônio e, claro, o clássico turismo de sol e praia com infraestrutura premium.

Oportunidades locais:
O Nordeste é o destino dos sonhos para muitos Boomers brasileiros, mas a exigência subiu de nível. Alagoas, por exemplo, liderou o ranking nacional de gastos turísticos em 2024, com uma despesa média de R$ 366 por dia por turista. Isso mostra um público disposto a investir em qualidade.
Em Alagoas, o foco deve ser no turismo de luxo acessível e no serviço impecável. Destinos como o litoral norte do estado ou a região dos Cânions do São Francisco, quando envelopados com serviços de transfer privativo, guias especializados em história local, gastronomia de alto padrão e acomodações que priorizam o silêncio e o conforto absoluto, são altamente atrativos. A comunicação para este público deve transmitir segurança, clareza e o valor do “legado” (a viagem como um momento inesquecível, com um atendimento caloroso e humano).
O “Gap” da Sustentabilidade: O que as marcas precisam saber
Vale destacar um dado crucial trazido pela Mintel. Trata-se do say-do gap em relação à sustentabilidade. Ou seja, a lacuna entre o que é dito e o que é feito. Ainda que posturas ecológicas sejam exigidas pelas gerações mais jovens. Na hora de pagar a conta, a conveniência fala mais alto. Bem como, o preço ainda é um fator determinante. Por isso, a sustentabilidade raramente é considerada o motivador principal. Em vez disso, ela é utilizada como um filtro secundário.
Como sua marca pode se destacar neste novo turismo?
O setor de turismo e hospitalidade vive um momento de renovação. Marcas que souberem ler os dados comportamentais e adaptar suas ofertas para os valores específicos de cada geração (seja a busca por autenticidade da Geração Z, a necessidade de conveniência da Geração X ou o desejo de conforto e atendimento humano dos Boomers) não apenas sobreviverão, mas liderarão o mercado.
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